Um estudo divulgado nesta semana revelou a presença de racismo no audiovisual brasileiro, destacando desigualdades salariais e tentativas de higienização cultural. A pesquisa "A Cor do Som", desenvolvida pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina durante o Novembro Negro, entrevistou 24 profissionais e especialistas do setor para analisar o preconceito na indústria sonora do país.
O levantamento reforça que a diversidade dos timbres humanos desmente a ideia de que existam timbres específicos por raça, contestando mitos sobre vozes de pessoas negras ou brancas. A iniciativa contou ainda com o suporte da empresa Audiolivros.
Padrões europeus e higienização sonora
A análise aponta que a produção técnica no Brasil adota modelos coloniais e europeus. Segundo o relatório, há um esforço constante para afastar ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras, impondo diretrizes para padronizar e "limpar" o áudio final.
Além disso, os pesquisadores criticam a imposição de uma norma culta rígida que desconsidera o "Pretuguês". O conceito, formulado pela ativista Lélia Gonzalez, descreve a influência de línguas africanas no português falado no Brasil, historicamente marginalizada como erro linguístico.
Barreiras no mercado de trabalho
No ambiente corporativo de agências e produtoras, profissionais negros relataram disparidades recorrentes em relação aos colegas brancos. Entre os principais problemas citados no dossiê estão:
- Remunerações inferiores para funções de mesma responsabilidade;
- Contratações motivadas por baixos custos salariais;
- Desvalorização da qualificação profissional e falta de reconhecimento;
- Sobrecarga de trabalho para comprovar competência técnica.
Relatos coletados exemplificam demissões após pedidos de equiparação salarial, substituindo técnicos qualificados por perfis brancos da internet. Outro ponto crítico é a concentração de negros em funções operacionais, deixando cargos de decisão e criação predominantemente para pessoas brancas.
Rotulação de conteúdo e silenciamento
O estudo destaca também a tendência de enquadrar profissionais e projetos negros como de "nicho". A pesquisa argumenta que o racismo estrutural impõe a visão de que produções negras servem apenas a esse público, enquanto produções brancas seriam universais.
Os autores concluem que quebrar o silenciamento é essencial para transformar a cadeia produtiva do som no Brasil, provocando um debate necessário sobre a neutralidade técnica e a inclusão real no setor.
Fonte/Créditos: Bruno de Freitas Moura ─ Repórter da Agência Brasil
Créditos (Imagem de capa): © Tânia Rêgo/Agência Brasil

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